Ler & Pensar
 
Livros


Perspectivas Juvenis


livro
Os jovens do campo estão buscando visibilidade, querendo acesso à cultura, educação e renda, sem deixar de valorizar a família e suas raízes. Eis, em resumo, as constatações do seminário “Juventude Rural em Perspectiva”, realizado em maio de 2006, pelo CPDA/UFRRJ, e que agora são publicadas em livro homônimo editado pela Mauad. A seguir, uma de suas organizadoras Maria José Carneiro, faz um balanço do encontro e do tema.


Qual o balanço e os resultados do Seminário?
O seminário teve muitos aspectos positivos, porque possibilitou o diálogo entre diferentes tipos de atores sociais: representantes de movimentos sociais, na sua diversidade; representantes do governo; membros da academia que estudam o tema e pesquisadores juniores, além, é claro, da participação de diversos interessados dos sete cantos do país, na maioria jovens militantes e estudantes das questões em foco.

Dois anos depois do Seminário, ainda é atual o debate sobre a invisibilidade da juventude rural?
Temos que ter cuidado em falar dessa invisibilidade agora. O tema da juventude rural tem atraído cada vez mais o interesse de pesquisadores e estudiosos. Mas, normalmente, a juventude rural aparece na mídia ou mesmo nas pesquisas como mão-de-obra (vide as reportagens no final do ano passado sobre os cortadores de cana em São Paulo). Outros temas que nos indicariam como a juventude rural vive as questões, que são próprias à juventude, ainda permanecem um pouco na invisibilidade. Como é vivida a cultura juvenil dos jovens assentados ou dos moradores do meio rural? Existe uma especificidade? Existem pontos comuns com os jovens urbanos? É possível continuarmos a falar desse coletivo "jovem rural" que se distingue, a princípio, do jovem urbano? Nesses aspectos, a "juventude rural" permanece na invisibilidade.

Maria José Carneiro (Foto: Acervo do Instituto Souza Cruz)
Como podemos pensar a migração campo-cidade, a tensão entre sair/ficar, num momento de transição no ciclo de vida que caracteriza a juventude?
A mobilidade campo-cidade sempre mobilizou os jovens com diferentes objetivos. Várias pesquisas, desde a década 70, já abordaram esse tema, mas sem que o recorte fosse sobre a juventude, mas muito mais sobre migração campo-cidade de modo geral. Na década de 70 fiz minha pesquisa de mestrado no interior do Piauí e observei que fazia parte da preparação do jovem para a vida ir para São Paulo ou Brasília. Saíam ônibus semanais com  filhos de camponeses que iam trabalhar na construção civil nessas cidades. Depois voltavam e vinham construir suas vidas no campo: casavam, abriam um pequeno comércio. A ida para a cidade era uma maneira de "formá-los" para a vida. É claro que alguns ficavam, mas um grande número voltava. Infelizmente, não temos estatística sobre isso. Logo, essa tensão entre sair e ficar é antiga mas nem sempre o "ir para a cidade" implica uma decisão de "sair do campo". Muitas vezes, como no exemplo acima, e como acontece hoje com os cortadores de cana, me parece, o "ir para o Sul" pode ser, parafraseando Afrânio Garcia, um "caminho para o roçado". Só que hoje não seria mais "para o roçado", mas "para o campo" porque os jovens, de modo geral,  não querem mais trabalhar na roça, mas querem ficar na sua localidade de origem, quando essa oferece melhor qualidade de vida, como eletricidade, que permite ter um DVD, telefone que aproxima as pessoas e permite o acesso à internet, escolas, trabalho não- agrícola, diversão, etc..  A facilidade da mobilidade espacial também é uma novidade que tem favorecido muito a decisão pela permanência do jovem no campo. A moto é o maior sonho de consumo desses jovens, já que permite morar em um lugar, trabalhar em outro, freqüentar festas em cidades vizinhas e namorar uma menina de outra localidade.

As influências de diversos contextos e os diversos espaços de expressões estão construindo novas mentalidades na juventude rural?
Acho que sim, o contato com outros universos culturais, seja através da TV, da internet (em alguns casos), mas principalmente através da mobilidade espacial está, a meu ver, contribuindo para a construção de novas mentalidades no meio rural, permitindo a construção de projetos mais diversificados, que incorporam universos espaciais e culturais mais amplos. Mas é interessante perceber também que essa comunicação se dá em um caminho de mão dupla. O jovem da cidade, vemos isso aqui no sudeste, está também se aproximando mais da cultura juvenil do nordeste. O Forró já se estabeleceu no Rio de Janeiro como uma música e dança dos jovens. Antes, até a década de 70, era dança de jovens nordestinos que trabalhavam como porteiros e empregadas. Aqui é importante lembrar o papel do saudoso Luiz Gonzaga na divulgação do forro e do baião no "Sul maravilha", prafraseando o genial Henfil. Além do Forró, temos hoje o Maracatu, a ciranda e outras músicas e danças do nordeste que animam parte da juventude carioca nas noites da Lapa.

Maria José Carneiro (Foto: Acervo do Instituto Souza Cruz)
Como o livro pode contribuir para a compreensão dos universos das juventudes rurais brasileiras?
Acho que as principais contribuições do livro são: estimular e divulgar essa troca entre setor público, academia e movimentos sociais que ocorreu com o seminário; e apresentar ao público a diversidade de questões e de realidades vivenciadas pelos jovens rurais do país.

Quais são os desafios e as perspectivas para a juventude rural brasileira?
O principal desafio é levar em conta e respeitar essa diversidade, tornando-a visível, estimulando o debate e divulgando as contribuições desses jovens para a construção de um projeto para o país. Aliás, uma coisa que me emocionou muito nesse seminário, foi ver como os jovens que participaram têm um compromisso com a transformação da sociedade brasileira, sentem-se responsáveis por essa transformação e pensam o seu lugar na construção de um projeto de futuro para o país. Isso foi realmente uma grande gratificação para mim.


Carneiro, Maria José; Castro, Elisa Guaraná. (Org.). Juventude Rural em perspectiva. Rio de Janeiro: Mauad X, 2007.
Para visualizar os arquivos você precisará dos seguintes programas:
Imprimir
| Enviar para um amigo
 

 
Primeira Página Relatórios de Atividades Mapa do Site Termos de Uso
Instituto Souza Cruz© 2004 - Todos os Direitos Reservados