instituto souza cruz - Entrevista com Renato Maluf

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Empreendedorismo que transforma

01/18/2012 - Da Redação

Graduado em Ciências Econômicas pela Universidade Metodista de Piracicaba, Mestre e Doutor em Economia pela Universidade Estadual de Campinas, com pós-doutorado na França e Inglaterra, o paulista Renato Sérgio Maluf, 59 anos, é presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea) . Esteve à frente da 4ª Conferência Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, que aconteceu em novembro, em Salvador (BA). Em 1985 integrou o grupo que viabilizou o histórico documento Segurança Alimentar – Proposta de uma política contra a fome.

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- Confira também a entrevista com Hélder Muteia, representante no Brasil da FAO


Quais são as prioridades da FAO no Brasil para o próximo ano?
Nossas prioridades estão ligadas à segurança alimentar e agricultura familiar, especialmente a programas que visam apoiar o que o governo brasileiro tem implementado no campo. Outra linha de atuação é no setor de preservação ambiental, com projetos e programas que têm como meta evitar o dano ambiental, principalmente de áreas de pastagem degradadas ou desmatadas pela má utilização. O Brasil adotou políticas públicas que podem servir de modelos a outros países.

Exemplos?
Pesquisas desenvolvidas pela Embrapa na área de tecnologia e programas como o Fome Zero e Mais Alimentos. Este, por exemplo, permite ao agricultor familiar acesso ao crédito, terra, equipamentos e ao mercado local de compras. No Fome Zero, o armazenamento de água da chuva para consumo humano e a compra de produtos da agricultura familiar para a merenda escolar podem ser replicados no contexto africano ou mesmo no Sul da Ásia.

A agricultura familiar pode contribuir para a segurança alimentar?
Pode e está contribuindo de forma efetiva em todo mundo e, aqui, de maneira muito especial. Segundo estatísticas recentes, 70% do alimento que vai para a mesa dos brasileiros vem da agricultura familiar. A agricultura comercial também cumpre o seu papel para a estabilidade do mercado nacional, mas está mais voltada para a exportação e grandes negócios. Ela ajuda a dar equilíbrio aos preços mundiais e contribui para alcançar a escala necessária ao comércio internacional mais eficiente e dentro das regras do mercado global.
 
A solução para alimentar os famintos no mundo passa pela agricultura familiar?
Cerca de 70% das pessoas que passam fome no mundo são agricultores, o que é paradoxal. Na África e no Sul da Ásia, os agricultores são muitos vulneráveis e praticam uma agricultura de subsistência, rudimentar, que chamamos de familiar por ser composta por famílias. Não tem a pujança da agricultura familiar da América Latina, por exemplo, com agricultores que trabalham em áreas de 100, 200 hectares. Na África, eles se viram com 1 hectare. Uma forma de ajudá-los a sair da linha da pobreza é apoiá-los naquilo que eles sabem fazer, que é a agricultura. Assim, poderão aumentar o volume da produção, combater a sua própria pobreza e se integrar à economia, tendo uma vida mais equilibrada.

O consumidor não tem renda suficiente para comprar alimentos?
De 2010 para 2011, a alta de preços empurrou cerca de 70 milhões de pessoas para as condições de pobre e extremamente pobre. Uma família extremamente pobre vive com menos de 1 dólar por dia e 80 a 90% de seu rendimento é reservado à alimentação. Se os preços dos alimentos sobem, estas pessoas começam a saltar algumas refeições. Em vez das três diárias, passam a duas ou até uma. Além disso, consomem produtos mais baratos, deixando de lado os itens essenciais a uma alimentação saudável, como carne, leite, legumes e os alimentos protéicos, gerando problemas nutritivos.

Como se resolve essa questão?
A melhor solução é estabilizar os preços, permitindo aos pobres não só planejar sua dieta como o pequeno agricultor programar também a sua produção. Um fenômeno que surgiu com a instabilidade dos preços foi a dificuldade dos agricultores em conseguir créditos. Quando eles vão ao banco solicitar um determinado valor para comprar um equipamento para produzir soja, por exemplo, ouvem como resposta que não há garantias de que o produto permanecerá com o mesmo valor na hora de vendê-lo lá na frente. Com a alta do preço, os médios e grandes agricultores saíram privilegiados, vendendo bem e ganhando muito dinheiro.

O Brasil foi muito prejudicado nessa crise?
Não como no resto do mundo, por uma razão bastante simples. A crise começou em 2008 e a partir daí os preços nunca mais baixaram. Como o Brasil é um grande produtor e exportador de alimentos, ele tem um mercado mais estabilizado. Há também as políticas de apoio aos mais pobres, que de certa maneira ajudaram a amenizar a crise, que contribuem para proteger a população mais vulnerável.

Estas políticas públicas são eficientes?
São em certa medida, mas naturalmente que não são perfeitas. O que falta é a certificação de que esses programas estejam presentes em todas as regiões do País de forma igual e com a mesma intensidade. Há lugares em que eles são fortes e, em outros, nem tanto. Seja como for, o País deu um salto muito grande para vencer a pobreza. É um modelo, inclusive, que deveria ser exportado. O Brasil tem obrigação moral de contribuir com o mundo.

Existe alguma experiência brasileira que já foi levada para outros países?
Já levamos para a África algumas iniciativas da Embrapa na área de tecnologia e agora precisamos exportar os modelos de organização e gestão agrícola no campo, além do associativismo. Estive recentemente no Paraná e aprendi como as associações e cooperativas funcionam, cuidando de vários setores. Cria-se uma escala. São ações simples e úteis. Um frigorifico, por exemplo, requer grandes investimentos e nem todos os agricultores podem obtê-lo. Mas é possível viabilizar o comércio por meio de uma cooperativa que sirva a todos. Estamos falando de solidariedade. 

O problema então não é a escassez de produção?
A alimentação é um tripé. O primeiro pé é a disponibilidade do alimento e isso existe. O segundo é o acesso – temos problemas sociais graves que impedem de chegar a ele de forma plena. O terceiro é a educação para a dieta saudável. Muitos pensam que se alimentar bem é comer muito, gerando situações como o de sobrepeso e obesidade. Como vivemos uma explosão populacional, a produção tem que aumentar para que haja disponibilidade para todo mundo, de forma sustentável. O que se produz hoje, se bem distribuído, atenderia ao planeta inteiro.

Aí não estaríamos tratando desse assunto...
Nos países mais pobres, cerca de 30 a 40% dos alimentos é perdida na chamada gestão pós-colheita - o alimento é colhido, mas não há condições de armazenagem para ele. Nos países ricos, o armazenamento até existe, mas cerca de 25% de alimentos também são perdidos porque há o hábito de se descartar aqueles alimentos que, no preparo em casa, são considerados inúteis – uma folha de alface não tão verde, por exemplo. Encher o prato além do que vai comer é outro exemplo. Então, de um lado, temos o desperdício por falta de infra-estrutura e, do outro, o mesmo desperdício por ignorância das pessoas em saber que tem gente morrendo de fome e, ainda assim, jogar produto bom fora.  Fala-se muito da sustentabilidade ecológica, porém não podemos nos esquecer da sustentabilidade social para vivermos mais dignamente.

O que deve ser feito para se garantir o direito de todos ao acesso a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente e de modo permanente?
É uma combinação de várias coisas. A fome está estigmatizada na África e no sul da Ásia, onde residem 90% da população faminta do mundo.  Alguma coisa tem de ser feita nesses locais e a resposta não depende apenas desses países, em posição de vulnerabilidade e encurralados em um esquema de pobreza. Precisamos de uma liderança internacional muito forte que dê apoio para que se desenvolvam economicamente e combatam a pobreza. Mas também há a responsabilidade em nível nacional. Embora ainda exista gente passando fome, o Brasil é um exemplo de país com bom nível de desenvolvimento, que tem adotado políticas eficientes para combater a pobreza. Esse exemplo pode ser seguido.

Muitos afirmam que faltam políticas estruturantes e que as existentes são emergenciais...
O Brasil está cumprindo o seu papel, com políticas estruturantes também. O que não significa dispensar as emergenciais porque não podemos deixar o vizinho morrer de fome. O País está investindo em educação, saúde, sistema de crédito e em uma legislação fiscal que funcione bem e seja equilibrada. Pode parecer que não, mas as taxas de câmbio afetam muito os produtores. Todos os países precisam fazer a sua lição de casa. No setor agrícola, tem que se investir em terras e em água para irrigação, no acesso à tecnologia, em uma legislação com regras claras. 

A juventude rural é importante na questão da segurança alimentar?
Extremamente essencial por ser uma faixa etária para onde convergem muitas políticas públicas voltadas ao campo. Como vivemos uma era globalizada e competitiva, a juventude não pode ser esmagada pela roda gigante do desenvolvimento. Se a tendência atual é a urbanização, é fundamental que tenhamos gente no campo para produzir, que se sinta motivada a permanecer ali com qualidade.  O jovem precisa entender a importância de seu papel de continuar no campo produzindo para alimentar o mundo.

O Programa de Fomento às Atividades Produtivas Rurais veio em boa hora?
É estimulante que os governos possam aprovar programas que visam estimular a geração de trabalho e renda com sustentabilidade. Aquele que não tem terra poderá ter, quem não dispõe de crédito no banco passará a dispor. Esses programas criam plataformas e janelas para jovens que nasceram em famílias pobres. Em vez de começarem a carreira como porteiro de uma boate, por exemplo, iniciam a vida profissional com uma carta de crédito para fazer aquilo de que mais gostam, que é trabalhar na agricultura.

Combustíveis de origem vegetal afetam a segurança alimentar?
A FAO abordou o tema nesse ano. Os biocombustíveis, tanto a cana como as oleaginosas para o biodiesel, disputam, sob o ponto de vista das terras aráveis, com a de produção de alimentos. E competem ainda para a utilização do grão.  Os Estados Unidos usam milho para produzir etanol, que é muito ineficiente. Tudo isso acontece porque há subsídios muito altos. Se for para produzir etanol, que seja o de cana então. É uma atividade que gera trabalho e oportunidade de emprego, mas deveria ser tocada sem subsídios, dentro das regras de mercado e baseada nas vantagens comparativas, sem descaracterizar a economia. 

Como conscientizar o consumidor para que, no ato da compra, ele adquira produtos feitos de forma sustentável?
Se for para consumir produto orgânico, por exemplo, ele precisa saber que o mesmo recebeu certificação, se não qualquer produtor vai dizer que o seu produto é certificado. Depois, as regras de rotulagem necessitam ser  claras, com informações facilmente identificáveis. O consumidor deve ter conhecimento ou ser informado dos riscos e perigos de certos tipos de alimentação. Não vamos cair na loucura de pregar que só os alimentos orgânicos podem ou devem ser consumidos. Morreríamos de fome porque 60 % do que comemos hoje são produzidos com agroquímicos.
 
Ainda não temos produção suficiente de orgânicos?
Não, só se fosse decretada a proibição do uso de agroquímicos. Mas aí teríamos problemas porque a Revolução Verde foi responsável pelo salto que o mundo experimentou no volume de produção. Acontece que o modelo cometeu o grande erro de não considerar a sustentabilidade ecológica. Hoje poderíamos até ter uma nova revolução verde, mas focada também na preservação ambiental.

O futuro da Segurança Alimentar está vinculado ao crescimento da população?
Em 2050 seremos nove bilhões de habitantes e a única saída é aumentar a produção, com tecnologia, inovação e criatividade. A ciência comprovou que os recursos naturais são finitos, daí a necessidade de se preservar o nosso ecossistema. A educação voltada para a conscientização desde criança é muito importante também. São fatores que vão garantir o desenvolvimento da humanidade de forma sustentável e com dignidade.


- Confira também a entrevista com Hélder Muteia, representante no Brasil da FAO
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