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Empreendedorismo que transforma

02/08/2012 - Da Redação

gazolla

O maior problema hoje no Brasil não é a fome, porque a maior parte da população come o suficiente, mas a alimentação é inadequada e desequilibrada. “As pessoas deveriam ser reeducadas para consumirem menos alimentos industrializados, gorduras e fast foods e aumentar o consumo de frutas, legumes e hortaliças”, afirma Marcio Gazolla, professor da Universidade Federal de Santa Maria , no Rio Grande do Sul. Em sua opinião, a segurança alimentar só se consolida no momento em que o volume de produção está atrelado à qualidade dos itens consumidos e à garantia de acesso a eles.

Ele assinala que os modelos agrícolas devem priorizar a diversidade produtiva e alimentar e que a agricultura familiar exerce uma função protagonista nessa história por produzir, no Brasil, por exemplo, mais de 50% dos alimentos que chegam à mesa dos brasileiros. Trata-se de um papel relevante, diga-se, especialmente em um cenário de superpopulação mundial. “Estamos consumindo 50% a mais do que o planeta pode oferecer. Nesse ritmo, nos próximos anos o colapso de recursos será inevitável”, alerta. Nesta entrevista, ele aborda o tema da segurança alimentar e suas implicações em um mundo que a população não pára de crescer.


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O problema da fome no Brasil é uma questão de falta de produção ou acesso aos alimentos?
Falta de produção não é. Atualmente, o Brasil produz em torno de quatro a cinco vezes o necessário para alimentar a sua população, como alguns estudos têm evidenciado. Além disso, o país exporta muito para o exterior, o que evidencia sobras produtivas, como é o caso dos países da União Europeia, China e Rússia, entre outros. Mas o acesso aos alimentos é uma questão importante para ser discutida. Ele é limitado principalmente pela baixa renda das camadas mais pobres da população e pela grande desigualdade social que existe no país, mesmo que nos últimos anos muitas pessoas tenham migrado das classes mais pobres como a D e E para as mais altas (C e B).

A fome não é o principal problema do Brasil?
Não, porque hoje em dia poucas pessoas passam fome realmente. As pessoas comem o suficiente, mas a alimentação é inadequada, desequilibrada, muito industrializada e de baixa qualidade. Outro problema é a pobreza extrema de uma parte da população, hoje em torno de 16 milhões de pessoas, segundo estimativas do Programa Brasil Sem Miséria . O chamado “núcleo duro” da miséria é que limita o desenvolvimento humano. Para essa parcela da população, as políticas públicas terão que ser muito pontuais e eficientes para conseguir modificar essa situação. Não é fácil desfazer esse nó, pois a pobreza é entrelaçada com violência em muitos casos, baixo nível educacional e outras mazelas sociais. A obesidade é outro obstáculo, porque 54% dos brasileiros estão com sobrepeso, de acordo com os últimos dados divulgados pelo IBGE , isso devido à alimentação desequilibrada e até ao excesso alimentar.

O atual modelo adotado é sustentável para alimentar as pessoas no mundo?
Eu acho que não, porque ele foi concebido para produzir alimentos em quantidade, mas não se preocupou com aspectos importantes como a qualidade da alimentação, acesso aos alimentos, o tipo de consumo, às implicações e impactos sobre o meio ambiente. Por exemplo, se olharmos a agricultura, o modelo atual baseado em monoculturas, especializado apenas em alguns alimentos, impede uma nutrição rica em nutrientes. Além disso, ela usa muitos insumos químicos e agrotóxicos nos alimentos, afetando a sustentabilidade ambiental das atividades.

legumes 

O modelo produtivo precisaria ser revisto?
Eu acho que ele é extremamente perverso, pois com a falta de regulação mundial, desde a crise de 2008 os preços dos produtos subiram e não caíram mais. Isso limita o acesso à alimentação pelos países e classes mais pobres. Boa parte dessa situação decorreu do poder das grandes empresas e grupos econômicos privados que, ao especularem em torno dos alimentos, barganham maiores lucros nos mercados internacionais. Também se nota nos últimos anos um número significativo de fusões e aquisições de empresas e indústrias alimentares pelo mundo todo. Trata-se de um movimento que oligopoliza, centraliza capitais e mercados alimentares em cada vez menos firmas, o que é perigoso na construção de uma estratégia sustentável e de médio a longo prazos de segurança alimentar e nutricional.

Como sair dessa situação?
Nós precisamos cada vez mais produzir diversidade alimentar, um dos princípios básicos da segurança alimentar. Ou seja, comer um prato mais “colorido”, consumir de tudo um pouco. É necessário também reconectar a sociedade com a natureza outra vez, sensibilizar a juventude e os moradores dos grandes centros urbanos. Se hoje você perguntar para uma criança de onde vem o leite, ela vai responder que é do supermercado ou da caixinha tetra pak. Isso é inaceitável. Temos de reintroduzir essa consciência da agricultura e do rural para a segurança alimentar. Depois, é necessário localizar os sistemas produtivos de alimentos para que possamos diminuir os custos de produção e de transação alimentar. E também os governos devem regular o poder destes grandes impérios alimentares nos países, pois eles não podem continuar como os principais mandatários nos mercados agroalimentares. É preciso ter regras claras sobre esse assunto. Ai entra o papel de regulador dos Estados Nacionais que estão um pouco apagados nessa questão, dos consumidores e da sociedade civil como protagonista e das organizações dos agricultores que devem ser mais ativas também nessa área.


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ERRATA: O nome correto do professor é Márcio Gazolla, e não Márcio Gazzola, como foi publicado na última edição da revista Sustentabilidade do Campo.

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