instituto souza cruz - Uma questão estratégica - parte 2

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Empreendedorismo que transforma

02/07/2012 - Da Redação

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Aproximar os agricultores dos consumidores...
Na Europa há um debate muito interessante sobre o Foods Miles, as milhas que os alimentos percorrem até chegar aos consumidores finais. É um absurdo o que os estudos identificaram para o caso europeu: os alimentos transitam centenas de quilômetros antes de chegar ao consumidor, gastando energia e combustíveis não renováveis, além de chegarem com preços aviltados e não necessariamente em boas condições de consumo. Dentro dessa estratégia de localização produtiva, também é essencial aproximar os agricultores de quem consome.

Na Itália, o movimento SlowFood  faz isso...
Na Itália o movimento SlowFood está construindo novas maneiras dos consumidores de se relacionarem com os circuitos locais de abastecimento alimentar. O SlowFood organiza eventos, feiras e vendas diretas aos consumidores de alimentos e também age na conscientização da população sobre o consumo consciente, de alimentos limpos e sobre a sustentabilidade ambiental. Ele é um movimento muito importante na Europa toda.

verduras

Garantir a todos o direito ao acesso a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente e de modo permanente é o maior desafio daqui para a frente?
Em 2011, segundo estimativas da ONU , a Terra passou a abrigar sete bilhões de habitantes. A missão agora será alimentar toda essa população sem destruir as nossas reservas, porque atualmente estamos consumindo 1,5 vezes a quantidade de recursos existentes, ou seja, 50% a mais do que o planeta pode oferecer. Se continuarmos nesse ritmo, nos próximos anos o colapso será inevitável, já que as projeções apontam que em 2100 atingiremos a cifra populacional de 10 bilhões de pessoas. Para o planeta se restituir em sua capacidade de produção de recursos, seria necessário diminuirmos em 33% o que consumiremos nos próximos 20 anos. Dessa forma, ele conseguiria se reciclar, se renovar.

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É uma questão que envolve todos os países?
Por ser global, exige uma regulação global também. Órgãos como a ONU, FAO, OMC, entre outros, devem construir soluções mais palpáveis, pois a questão ambiental é muito séria e dela depende o nosso futuro e a produção de alimentos. Poderiam começar se preocupando mais com a fome na África, onde morrem milhares de pessoas por ano, em regular o poder das grandes corporações alimentares mundiais, em fazer os EUA, principal consumidor e poluidor do planeta, assinar os acordos climáticos mundiais, além de criar regras para as especulações em torno dos preços dos alimentos.Temos ainda de fazer uma opção pelos alimentos típicos locais e pelos orgânicos, reeducando as pessoas a se alimentarem melhor.

A insuficiência de renda de parte da população é um obstáculo a ser superado...
É um elemento implicante. Precisamos inserir as pessoas nos mercados de trabalho e de emprego de forma mais estrutural. Na economia brasileira, por exemplo, os empregos são precários, temporários e informais em uma escala ainda muito grande. A inserção, no entanto, tem de ser diferenciada. O Brasil ostenta capital, tecnologia e está vivenciando um bom ciclo econômico de crescimento, mas as pessoas não estão devidamente qualificadas para fazer parte dessa nova realidade. Conheço muitas obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC)  que estão dando emprego para profissionais do exterior. Nesse sentido, seria necessário o Estado investir mais em cursos de formação, em capacitar e qualificar a força de trabalho do país, pois dessa forma as pessoas poderiam acessar postos de trabalho mais bem colocados e remunerados, o que implicaria positivamente na melhoria da qualidade de vida e alimentação.

O Brasil tem cumprido o papel de garantir à sua população acesso aos alimentos?
Eu acho que os programas Fome Zero e o Bolsa Família, juntamente com os aumentos crescentes de renda e do salário mínimo, tiveram um papel importante na melhoria de vida e da alimentação dos brasileiros. Segundo afirmações do governo, foram retirados em torno de 25 milhões de pessoas da fome e pobreza nos últimos anos. Mas estas políticas só iniciaram o combate da pobreza, mas ainda não conseguiram fazer a transição estrutural de todo esse contingente populacional e inseri-lo produtivamente na sociedade. É claro que isso é um processo histórico, demorado e se deve ter paciência. Está na hora, no entanto, de adotarmos políticas mais profundas de transformação estrutural em termos de renda, empregos qualificados, alimentação esaúde, entre outras.

compotas 

Como a agricultura familiar pode contribuir estrategicamente para a segurança alimentar?
Ela exerce um papel muito importante por produzir mais de 50% dos alimentos do país. Fala-se em 70% dos alimentos, mas não acredito que chegue a tanto, embora produza mais do que a agricultura patronal, mais voltada às commodities e produtos especializados. Tem também em torno de 85% dos estabelecimentos agrícolas e emprega quase 75% das pessoas no meio rural. A agricultura familiar retém as populações no campo, com a possibilidade de produzir os seus próprios alimentos. Além disso, trata-se de um modelo produtivo diversificado. Ela produz 87% da mandioca, 70% do feijão, 46% do milho, 58% do leite, 50% das aves, 59% dos suínos e 30% dos bovinos, entre outros produtos básicos da dieta alimentar do brasileiro.

Mas falta corrigir algumas distorções...
A agricultura familiar nesse sentido é muito importante, embora tenhamos que consertar algumas distorções que a afligem ainda. Por exemplo, o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf)  tem uma lógica de atuação equivocada em alguns pontos. O crédito rural tomado pelos agricultores está fomentando a especialização e comprometendo a diversidade produtiva das propriedades rurais. Em alguns casos até, afetando a segurança alimentar do agricultor. A gente observa que mais de 70% dos recursos do programa a nível nacional são investidos em apenas duas culturas, o milho e a soja. Os estudos apontam para isso, mas o governo, as organizações de representação política dos agricultores e os movimentos sociais não têm feito muito para modificar essa situação. A agricultura familiar necessita de crédito rural para se desenvolver, mas não só dele. Devemos dar a ela outras políticas públicas e apoios, mas de forma não equivocada.


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ERRATA: O nome correto do professor é Márcio Gazolla, e não Márcio Gazzola, como foi publicado na última edição da revista Sustentabilidade do Campo.

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